Ex-detento inicia internato após cursar Medicina a mais de 2 mil km de casa: ‘Atender como gostaria de ser atendido’

0
6

Wallace William da Costa vai voltar para Juiz de Fora e iniciar o internato
Arquivo pessoal
Quando decidiu cursar Medicina, o ex-detento Wallace William da Costa sabia que teria de enfrentar a distância da família. Para estudar na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), em Araguaína, deixou Juiz de Fora e passou os últimos anos a mais de 2 mil quilômetros da esposa e das filhas.
Agora, após concluir os oito primeiros períodos da graduação, Wallace, de 47 anos, conseguiu autorização para realizar parte do internato em Juiz de Fora e, assim, voltar a ficar perto da família.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp
🔎 O internato é a etapa final do curso de Medicina, quando os estudantes passam a atuar diretamente nos serviços de saúde, sempre com supervisão. Parte dessa formação pode ser realizada em outra instituição por meio de mobilidade acadêmica, conforme as regras das universidades envolvidas.
É também a oportunidade de voltar a viver perto de casa após anos dividindo a rotina entre Minas Gerais e Tocantins. “A princípio, estão liberados três meses. São duas matérias e ainda estão para liberar outras duas”, explicou.
O primeiro dia de atividades no internato foi nesta terça-feira (18), e Wallace não escondeu a empolgação.
“Meu dia foi maravilhoso, espero que os demais também possam ser assim, com muito aprendizado. Que eu possa realmente conseguir atender as pessoas da forma que eu gostaria de ser atendido. Espero que eu consiga dar essa nova guinada, agora junto da minha família, que é muito importante. A motivação fica diferente quando você está próximo de casa”.
Após cumprir pena por tráfico de drogas, homem passa para cursar Medicina
Distância da fam
Em 2023, quando ainda estava no segundo período de Medicina, Wallace conversou com o g1 sobre os planos para aquela que considerava uma nova etapa da vida.
À época, o estudante contou que a distância da família era um dos principais desafios da graduação. Para estudar no Tocantins, precisou deixar a esposa e as filhas. Agora, já próximo de concluir o curso, comemora a possibilidade de voltar a passar mais tempo ao lado delas.
A possibilidade de voltar para casa encerra um ciclo de distância, mas também marca mais uma etapa de uma trajetória de recomeço. Mesmo que por pouco tempo, ele considera como positiva a oportunidade.
“Ficar longe da família é difícil demais. Com essa chance de internato em Juiz de Fora, pelo menos nesse período, já me ajuda muito”.
Do cárcere à faculdade
O caminho de Wallace até a universidade começou muito antes de ele vestir o jaleco. Aos 18 anos, foi preso e cumpriu quatro anos de pena em regime fechado.
Durante o período em que esteve preso na Penitenciária José Edson Cavalieri, em Juiz de Fora, decidiu concluir o ensino médio.
“Quando eu me vi privado da liberdade, vi que, ou eu continuava naquela vida ou ia mudar. Aí me deu um estalo e eu resolvi acabar de concluir o segundo grau dentro da penitenciária, em um processo supletivo”.
Após deixar o sistema prisional, continuou estudando. Aos poucos, o projeto de chegar à universidade ganhou forma até que ele conseguiu ingressar no curso de Medicina.
Wallace completou o ensino médio na penitenciária e depois passou para Medicina
Reprodução/TV Integração
Conforme ele, a nova trajetória de sua história mostra que o passado nem sempre determina o futuro. “Geralmente, a pessoa que está nesse lugar não consegue enxergar nada de diferente. Mas, se você lutar, muda essa situação. Quando você bate no fundo do poço, você não tem mais para onde descer, então é onde você pega o impulso e sobe”.
Ele também festeja o papel da educação nesta mudança de vida.
“Eu sou uma prova viva de que é preciso lutar pelos sonhos. Sempre vai haver esperança, desde que a pessoa queira. Sempre há uma nova forma de ver a vida.”
LEIA TAMBÉM:
Ex-detento conclui estudos na prisão e agora cursa medicina: ‘Uma nova forma de ver a vida’
Detento transforma aprendizado adquirido no presídio em confecção própria
VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes

Fonte: G1 Tocantins