Zé Manoel apresenta o show ‘Do meu coração nu’ em Salvador (BA), na sexta edição do festival ‘Radioca’
Rafael Passos / Divulgação
♪ SALVADOR (BA) – Quarta das seis atrações do segundo e último dia da sexta edição do festival Radioca, o show de Zé Manoel se diferenciou na programação pelo caráter íntimo, por vezes até inadequado para o evento de médio porte realizado no último fim de semana em dois palcos armados na Fábrica Cultural, no bairro da Ribeira, em Salvador (BA).
Pianista, compositor e cantor, o artista pernambucano imprimiu refinado toque de delicadeza no Radioca 2022 ao apresentar na noite de domingo, 13 de novembro, o show baseado no álbum Do meu coração nu (2020), disco estupendo em que, se despindo dos pré-conceitos brancos, Zé Manoel reconstrói narrativa social e musical do ponto de vista do povo preto.
Antes mesmo de apresentar a primeira música, História antiga (2020), o artista fez o público ouvir, em off, Escuta Letieres Leite (2020), fala musicada do disco em que o maestro baiano Letieres Leite (1959 – 2021) defende a onipresença da África em toda a música brasileira, inclusive no baião de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), conterrâneo de Zé Manoel, pianista de fraseado modernista.
Na sequência, Pra iluminar o rolê (2020) acendeu no palco do Radioca a leveza pop retrô também presente na sonoridade do álbum Do meu coração nu. Sol das lavadeiras (Zé Manoel e Mavi Pugliesi, 2012) também deixou rastro de luz no festival, exemplificando a poética nordestina que banha o cancioneiro do compositor, como sublinhado pela música seguinte, Quem não tem canoa cai n’água (2015), tema inspirado pelo samba de véio que brota no sertão de Pernambuco.
Com habilidade para transitar por balada apaixonada e tristonha, Canção e silêncio (2015), primeiro hit da obra do artista, Zé Manoel fez show lindo, expressivo, que alcançou suave densidade em temas como Notre historie (Zé Manoel e Stephane San Juan, 2020) e No rio das lembranças (2002), imersão nas águas doces de Oxum em que Zé Manoel revolve memórias ancestrais e evoca canto de candomblé do terreiro Xambá, de Olinda (PE).
No fim do show, Zé Manoel alcançou maior empatia com a plateia – parcialmente dispersa, como em todo festival – ao dar voz a Não negue ternura (Zé Manoel e Luedji Luna, 2020), música propagada na novela Pantanal (2002), e ao reviver o reggae Me abraça e me beija (Lazzo Matumbi e Gileno Félix, 1988) – popularizado na voz de Margareth Menezes – sem sair da moderna sofisticação harmônica que regeu o show do artista no sexto festival Radioca.
Para quem abriu o coração para o som de Zé Manoel, a apresentação do pianista ficará na memória.
♪ O colunista do g1 viajou a Salvador (BA) a convite da produção do festival Radioca.
Fonte: G1 Entretenimento
